“O PRECONCEITO COMEÇA COM O PRÓPRIO NEGRO”?

Ultimamente tenho recebido muitas mensagens (muitas mesmo) de meninas que se acham feias, que não gostam dos seus corpos, dos seus cabelos, lábios, nariz … Isso me deixou preocupada e fez com que eu analisasse algumas coisas. 

Pra começar, eu me identifico com cada uma delas, não só pelo fato de que todas eram negras, mas porque eu também já me senti assim. Já tive vontade de ser branca, de ter um nariz bem fininho, cabelo liso… Eu não gostava de mim mesma a maior parte do tempo e sofria por saber que era impossível mudar. Algumas meninas entram em depressão, se isolam e infelizmente algumas chegam a cometer suicídio por causa da forma como se enxergam.

Qual será o motivo delas se enxergarem de forma tão negativa? É culpa delas? Quando isso começou?

Muita gente gosta de dizer que o preconceito e o racismo começam entre os negros, mas vamos avaliar os fatos para chegar a uma conclusão que faça sentido, já que este argumento é bem estúpido.

Nenhum negro acordou em um belo dia de verão e pensou: “Nossa! Como minha cor é feia! Quero mudar! Vou passar a me odiar agora!”. Se o negro passou a se odiar, foi porque existiu um branco para ensinar-lhe esse tipo de coisa. Nenhum negro pediu para ser chamado de macaco, sujo, fedido. Nenhuma negra pediu para ser violentada e nenhuma família negra orou a Deus para que fossem retirados de sua terra natal e escravizados de forma tão cruel.

Então você me diz: “Tá! Mas isso aconteceu a séculos! Hoje em dia a história é diferente!”

É verdade, isso tudo aconteceu a anos, mas muita coisa não mudou. Não da pra fazer uma lavagem cerebral em um racista que cresceu aprendendo a ser racista. Infelizmente, muita gente ainda acredita que lugar de negro é na favela, na cadeia, como subordinado ou no cemitério.

Durante a escravidão o povo negro passou por grandes traumas físicos e principalmente psicológicos. Nossas características físicas foram ridicularizadas por séculos e foi exatamente daí que surgiram os pensamentos ruins do negro com relação a si.

Depois da abolição da escravatura os negros foram “libertos” sem receber nenhum tipo de auxílio de quem estava no poder para que tivessem uma vida digna. Não receberam terras ou casas (por isso existem as favelas hoje em dia), foram largados como cães de rua. Muitos senhores não admitiam pagar para um negro fazer o que antes era feito de graça; esse pensamento se perpetuou entre grande parte da elite da época e foi passado para as gerações futuras, trazendo a realidade que temos hoje. O negro está sempre em posições mais baixas que o branco; são poucos os que conseguem alcançar grandes cargos e quando conseguem já estão muito mais velhos do que os outros brancos na mesma posição. Dificilmente você encontrará um empresário negro muito bem sucedido com menos de 30 anos de idade.

A maioria de nós não cresceu tendo representatividade. Muitos jovens negros, assim como eu, cresceram vendo os colegas de escola irem para o mundo da mediocridade onde não saem do lugar, deixam de pensar alto, não tem ambição por um futuro melhor e acreditam que é normal e aceitável viver na pobreza, tendo um subemprego e um salário de miséria. Infelizmente a realidade é que o mercado de trabalho ainda é racista, e se você usar um black power ou dreads, as chances de ser aceito caem pelo menos 50% porque a alta sociedade ainda não aceita nossas características negras.

Nós crescemos ouvindo que nariz de negro é feio, então milhares de meninas resolvem aprender a afinar o nariz com maquiagem. Ouvimos que cabelo de negro é feio- principalmente se for cabelo crespo do tipo 4-, então passamos anos sendo submetidos a químicas de alisamento altamente nocivas ao organismo ou a alisamentos com chapinha, ficando com a orelha ou a testa queimadas durante o processo. Ouvimos que a mulher negra é vulgar e que não serve pra casar, que os corpos dos homens e mulheres negras servem apenas para saciar o branco sexualmente. Esse pensamento começou na época da senzala e está enraizado na sociedade de hoje. Nem todos tiveram a chance de se desconstruir e muitos de nós morreram com esse pensamento negativo sobre sua raça.

Graças a Deus essa realidade vem mudando aos poucos!

O racismo começa quando meu cabelo crespo natural não se encaixa nos padrões da empresa, quando meu nariz é feio, quando minha cor faz de mim um alvo para a polícia independente de minha inocência. O racismo começa quando eu sou seguida nas lojas do shopping porque acham que vou roubar algo, quando os dreads que fazem parte da minha cultura só são bonitos quando estão na cabeça de brancos, ou quando ao invés de usarem uma modelo negra, preferem pegar uma modelo branca, colocar um black power nela e depois criarem um efeito no photoshop para que ela pareça mais bronzeada. Dizer que no Brasil o racismo começa entre os negros ou por causa dos negros é a mesma coisa que dizer que a menina pediu para ser estuprada. Se existe alguém errado, não é o oprimido, mas o opressor.

Se você é branco, provavelmente nunca passou por nenhuma das coisas escritas neste post, portanto, não vai entender algo que está fora de sua realidade. E antes que comecem os comentários de  “mas brancos também sofrem”, “nem todo branco é rico” e blá blá blá, aviso logo que brancos não são vítimas de racismo apenas por serem brancos porque a “beleza branca” é padrão. Ninguém sofre por ser branco da mesma forma que ninguém sofre por ser hetero ou magro. E nem adianta falar que tem os albinos e as pessoas com vitiligo, os portadores de deficiência física, os gordos e o resto do mundo! Nós sabemos disso. Todo mundo tem algum tipo sofrimento, mas não somos tratados como iguais, os sofrimentos não são iguais e aqui eu estou falando  da pessoa negra e ponto. Se você queria ler sobre o sofrimento do deficiente físico, não estaria num post onde o título está relacionado a racismo, não é?

Estamos entendidos? Obrigada.

Vamos parar de inverter os papéis. Sororidade faz bem.

UBUNTU

 

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9 comentários sobre ““O PRECONCEITO COMEÇA COM O PRÓPRIO NEGRO”?

    1. A sociedade brasileira nasceu do ódio, do racismo do de pela clara contra os negros e se perpetua até hoje, pois não desconstruiu racismo, os de pele clara preferiram perpetuar esse mal,educando toda sociedade a respeitar os de pele clara e rejeitar os negros,expondo sempre os de pele clara como padrão de beleza e do bem , da sabedoria etc. Nós que estamos frente a isso precisamos interagir como uma força de rejeitar esse padrões impostos, desligando a televisão que nos inculca a isso que controlada diretamente pelos de pele clara, as revistas e o próprio sistema de educação são controlados pelos de pele clara, quando os negros comprar revistas onde só tem branco estamos fortalecendo um padrão de beleza que não é o nosso, é só não comprar, não assistir e se impor nessa sociedade racista .
      O seu texto é bom

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  1. Seu texto é muito bom e enriquecedor! Saiba que fico feliz em ver que o movimento negro está crescendo e o empoderamento da mulher negra também. Isso é ótimo para nossa sociedade, vamos nos unir cada vez mais por um lugar mais pacifico e harmonioso! Só lhe peço para não generalizar as coisas, sou sim, uma pessoa branca, e digo, há pessoas brancas que tem o cabelo crespo e também sofrem por isso, e também há aquelas que a sociedade dita fora do padrão. A gente tem de entender que não é só o branco que é o opressor, a gente vê casos na África em que os próprios negros ofendem e oprimem seus semelhantes. Não podemos generalizar entende? Vejo amigas que se tornaram raivosas com pessoas brancas por não fazerem parte da mesma personalidade e ai voltamos ao ponto inicial, a mesma união é a mesma que separa? Não sei se ficou claro, só quero dizer que eu acho lindo o amor próprio e o crescimento do negro no mercado de trabalho, nas escolas, na sociedade. Só não concordo com exclusões de pessoas que as vezes muito queriam fazer parte de um mesmo movimento, mas não tem as mesmas características físicas. Passar bem viu! Ótimo texto, sucesso com seu blog 🙂 Beijos

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  2. Bom em relação a não se aceitar como negro, graças a Deus nunca passei por isso sempre me achei lindo e se os outros não acham é problema deles. Minha alto estima é maior que eu. Tive uma criação de primeira onde eu e meus irmãos tivemos muitas informações dos nossos pais em relação a sermos negro. Jamais se baixem para outro pessoa por conta da sua cor e saiba sempre chegar e sair de um lugar de cabeça erguida.

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  3. Amei o texto! Principalmente o final onde vc fala para as pessoas de pele clara não virem e inverter os papéis, pois os comentários que mais fazem quando o assunto é racismo ou discriminação em relação aos negros sempre tem gente que inverte os papéis, querendo deixar o assunto “tranquilo”, “normal”, fazem isso como uma manobra para que as pessoas não abram os olhos pra esse preconceito! Parabéns!

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  4. o negro que não gosta de ser chamado de preto é racista sim. eu sou branco e não ligo de ser chamado de branco, agora o negro se ofende ao ser chamado de preto pq? oque tem em ser negro ou preto?

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